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alta degradação

políticas de rendas antigas, desinteresse dos donos, conflitos familiares de herança, abandono, degradação, abrigo momentâneo de sem-abrigos, falta de cuidado com o património, ambientes onde o rosto da arquitectura típica e o legado cultural desaparece. a cidade de faro não é excepção.
era uma vez…

dedicada a todos aqueles dias e todas aquelas noites saudáveis da nossa infância quando percorremos os becos até ao anoitecer…quando andávamos de bicicleta em alta velocidade nos caminhos de terra batida…quando trepávamos as árvores que rodeavam as nossas casas…quando ainda haviam prados abertos logo ali, a virar a esquina…quando brincávamos que o material de construção na futura pista desportiva eram barcos num mar imenso de água pluvial…quando entrámos no jardim do vizinho para lhe roubar maçãs ou cerejas…quando construíamos casinhas de tábuas de madeira para os nossos clubes secretos… quando o ar se respirava, limpo…quando o mundo ainda nos parecia segura…quando ainda tínhamos espaço…quando éramos livres…
dias de punk

anos 80. país suécia. grupo ebba grön. letras anti-capitalistas. críticos do estado. solidariedade com a classe trabalhadora. anti-fascistas. anarquistas. ídolos de várias gerações.
o thåström aos berros na “staten och kapitalet”: “lado ao lado, estão de mãos dadas, o estado e o capital, sentados no mesmo barco, mas não são eles que remam, remam até afogar em suor, e o chicote que esgaravata, nem arranha as suas nucas gordas (…)”.
letra hiperactual sobre os problemas de habitação, as rendas altíssimas, o papel da escola a colmatar o aumento do desemprego, e a pressão nas pessoas que lutam para não perderem o seu ganha-pão.
sonho
e se as nossas cidades fossem cuidadas? se o nosso património fosse bem tratado, as casas antigas recuperadas para serem criadas ambientes possíveis de habitar?
se houvesse escolha.
em vez de sermos quase obrigados a escolher a viver em mamarrachos degradados, apesar de estarem cá há poucos anos, e de arquitectónica duvidosa, podermos criar a nossa vida em espaços onde a alma respira e onde o olhar é deslumbrado pelas traças antigas do lar?
onde a luz entra nas pequenas janelas quadradas, inseridas na porta de madeira maciça. onde na pia em pedra na cozinha já se lavava loiça há um século atrás.
onde as tábuas do chão, gastas, lisas e quentes do sol, fazem barulho quando percorremos o corredor e onde de vez em quando as nossas meias ficam presas nas irregularidades.
onde as portas das janelas que vertem para a rua já não assentam bem, bem, mas configuram um charme devastador e uma sensação de pertença a algo maior.
e se isto fosse possível para todos?