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merci, merce cunningham (1919-2009)

(foto: ursula striner)
faleceu o bailarino e coreógrafo merce cunningham. em 1996 tive a oportunidade e honra de me cruzar com o homem no copenhagen dance festival, num trabalho para a secção de cultura gränslöst (sem limites) o jornal göteborgs-posten (o correio de gotemburgo). um senhor esbelte, irrequieto apesar da sua idade já na altura, a cara enquadrada de caracóis despenteadas, uma voz tímida e mãos vividas com dedos finos e longos. um olhar vivaço e curioso. laid-back. parecia mais o avó de alguém com a sua camisa de padrões múltiplas, de castanho e turquesa. na altura tinha 77 anos.
parceiro de john cage durante muitos anos, desenvolveu técnicas de dança, inspiradas no budismo zen e na música do compositor experimentalista e criador de música de acaso, baseadas em contas aritméticas e nas teorias do etinstein sobre a não existência de pontos fixos no universo, mas ao mesmo tempo completamente livres e imprevisíveis. sequências complicadas e fisicamente exigentes, nos últimos anos trabalhadas no computador, quase impossíveis, para os bailarinos na companhia de merce cuningham, no entanto com um resultado espantoso.
falou naquele dia sobre a importância de seguir pela vida for com felxibilidade e com os sentidos abertos. disse na altura: “o movimento fascina-me desde sempre. esta vida tem sido uma aventura espantosa, uma possibilidade de descobrir coisas novas.”
merce cunningham tinha 90 anos.
figura de urso?

começou, já lá vai uma década, com as vacas. um imenso espectáculo público de arte, para todos, em forma animalesca. bichinhos deitados, em pé, ou simplesmente a pastar por aí…a até hoje o desfile das figuras bovidae em fibra de vidro já decorreu mais de 50 cidades. até o algarve teve o seu desfile de “vacas loucas”, no centro cultural de são lourenço em 2000, com artistas e criadores nacionais, internacionais e locais metidos ao barulho. de repente apareceram vestidas de roupa de todos os feitios, padrões e gostos.
apostou-se na cabra algarvia. pelo menos em castro marim, ainda este ano. mais um ruminante. teimosa e casmurra, devastadora por onde passa, mas pacífica, autóctone. promovendo os produtos rurais e as tradições regionais.
agora é a vez dos ursos desfilarem. artistas juntarão 35 ursus na praia dos pescadores em carvoeiro num dança colorida que se inicia a 11 de julho num acontecimento artístico apoiado pelo organismo turístico da região e que se prolongará nos próximos meses a monchique e loulé, inspirado no “buddy bears” (berlim em 2002), com o intuito de “estimular as pessoas e criar um impulso positivo, para demonstrar que é necessário seguir em frente.”
nas asas da liberdade

(foto: frederick glasier 1902)
inspiradora, expressiva…loїe fuller, artista, “deusa da luz”, mulher de uma época que sempre admirei, qual gostaria de ter vivido, tempos de inovação, de ideias, de descoberta, de arrasar limites, de revolucionar, e de procura constante de expressões novas.
decoravam os postais de arte nouveau as paredes da casa-de-banho da minha madrinha no meio da floresta, imagens coloridas de tempos passados, decorativas, pérolas, adornos, formas femininas, soltas, belas, atrevidas, libertadoras, criadoras de novos mundos e de novas ideias, a loїe também fazia parte…
fabuloso

foto: andrea mohin/the new york times
bill t jones está de novo no palco, desta vez no broadway com “the quarreling pair”, como director e coreógrafo, naturalmente através da sua companhia que criou com o falecido companheiro arnie zane.
sempre na berra, controverso, atrevido, testando os limites, desafiando um mundo de preconceitos, o homem continua mais activo do que nunca e muito bem.
lembro-me quando estive na danci’n city em copenhaga em 1996, feliz e contente a dar os meus primeiros passos enquanto jornalista num dos maiores jornais na suécia, göteborgs-posten, e estava prevista uma entrevista com esta lenda viva.
fui ao encontro do agente dele, juntamente com a minha colega fotógrafa, perto do teatro nacional de copenhaga, e juntamente com uma data de outros colegas a darem cobertura ao evento cultural.
esperámos. esperámos. esperámos. pois, e nada. anunciaram que o bill t jones se encontrava indisposto, com uma constipação e “lamentamos mas não vai ser possível dar a entrevista”. pânico no interior da jovem jornalista, que estava à espera de uma conversa interessantíssima com o grande bailarino e coreógrafo, que estava prestes a realizar uma estreia mundial na capital dinamarquesa com uma obra partindo das canções de jaques brel, a viver com vih, já na altura há mais de 10 anos, e um dos grandes opositores de tudo que era tabus e provocador – racismo, sexualidade, sida, morte. fodido!
fui ver a peça. adorei. personagens altas, baixas, louras, morenas, magras, gordas, carecas, cabeludas, uma mescla de todo o tipo de homem e mulher, tal como na vida real e não como nos mundos idealizados por mentes restringidas. acabou. aplaudidos em pé com rentrées variadíssimas.
para tentar salvar a situação subiu o palco e fui backstage com a minha colega. encontrei o grande homem, cansado mas feliz e muito amável. expliquei-lhe a situação e começámos a conversa. só para sermos interrompidos rapidamente pelo agente que o afastou ao pé de mim e disse que “não pode ser” e “o sr bill t jones precisa de descansar”.
pois, o que fazer? voltei ao meu quarto de hotel, frustrada, mas contente na mesma por ter tentado. expliquei a situação a minha redactora e ela entendeu. houve outra abordagem no texto.
só respeitando os outros conseguimos o mesmo tratamento. por isso, continuei tranquila.