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dobras de papel

deixa nos focar ao mesmo tempo que descontraímos. força-nos a seguir regras, ao mesmo tempo que nos concede toda a liberdade de imaginação. nos momentos mais pesados deixa-nos mais leves.
rã de papel criada com técnica origami. estarmos a passar por uma crise a nível mundial e o boneco ser feito um bocado de uma página de economia de um diário, é mera coincidência.
assim é…

foi assaltado. quatro homens para um. estava aí a mostrar um pouco a mais que tinha dinheiro enquanto pagava o eléctrico em lisboa. aproveitaram. em pleno dia. perdeu metade do dinheiro que trouxe. apanharam um dos tipos. foi lhe devolvido metade do gito. os outros escaparam com o resto. teve sorte de não ter perdido a certeira com os cartões. passou depois o dia na polícia para identificar os tipos entre 330 homens caucasianos. como ele já viajou pelo mundo fora, e já foi assaltado noutras ocasiões, não estava muito transtornado. até achou que viveu uma cena para contar aos amigos. é este cenário do wild west que vai começar a ser o nosso dia-a-dia, com o piorar do tempo de crise? bem-vindo à realidade…
aqui fora na rua

estava eu a tentar pregar olho. tinha estado numa formação sobre comunicação e saúde e estava bem a precisar de dormir após horas e horas a concentrar-me no sotaque brasileiro do formador de rio de janeiro. mês de abril. cidade: porto.
estava numa residência em pleno centro portuense com o quarto virado para a rua. com a movimentação normal de uma cidade razoavelmente grande, perto da estação de comboios, do rivoli e da câmara municipal.
quase a adormecer, a cantiga insistente começou. primeiro quase não dei por ela. mas com a a alteração constante das vozes que a produzia não tive sossego. pois parecia-me uma data de pessoas a festejarem mesmo debaixo da minha janela no 2º andar.
fui espreitar através das persianas. estava um homem sentado no chão, no outro lado da rua, debaixo das arcadas de um dos bancos que nos dizem que nos emprestam dinheiro para facilitar a nossa vida, só para nos sugar e esvaziar o bolso depois. agarrado a uma garrafa de vinho e a berrar uma melodia sem início, meio ou fim. ele é que fazia as vozes todas.
estava já a pingar bastante do céu e o homem lá continuava e tentar alegrar-se durante a noite fria e húmida. se calhar sem se aperceber do barulho que produzia e talvez até inconsciente de que a canção mais parecia um remix do pavarotti e do crazy frog.
perto das três da manhã, uma das equipas que dão apoio às pessoas menos afortunadas e que vivem na rua passou-lhe uma tupperware com comida e uma manta para o aquecer. só assim é que acabou de cantar. aconchegado. mesmo ao lado de um dos símbolos do capitalismo.
noticiaram hoje que com a crise financeira, as organizações de solidariedade estão também a receber menos fundos. as pessoas em geral, além das que já antes tinham pouco dinheiro e não podiam dar, ou das que não queriam sustentar esta pária (chamados injustamente por alguns) de sem-abrigos que escolheram (?) viver fora do sistema, deixaram de estender a mão a quem já está com a mão estendida, à procura de ajuda.
há muitos anos um político na suécia disse que “um dia vamos viver num buraco, e andar de bicicleta para o trabalho, só com uma sandes no bolso”, meio a brincar. hoje parece que esses dias já chegaram a nós. nós, afortunados. agora imagina o resto das pessoas…