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viagem

é o vento que me leva.
o vento lusitano.
é este sopro humano universal
que enfuna a inquietação de portugal.
é esta fúria de loucura mansa
que tudo alcança
sem alcançar.
que vai de céu em céu,
de mar em mar,
até nunca chegar.
e esta tentação de me encontrar
mais rico de amargura
nas pausas da ventura
de me procurar…
miguel torga, in “diário xii”
do céu

a ideia da selma lagerlöf de viajar sobre as costas de um ganso e ver as regiões do país, este caso as da suécia, não era de todo má e muito à frente no tempo dela. de viagem, de forma mais moderna e através de uma companhia neerlandesa, vivi há pouco momentos estéticos e visuais inesquesíveis. vi, mais uma vez, este mundo maravilhoso do céu. as padrões, as montanhas, onde passaram há milhões de anos massas de gelo a esculpirem a paisagem, e onde ainda hoje prevalecem no topo pequenas manchas de neve, o azul infinito do mar, as bolas de algodão das nuvens, as longas praias brancas das costas, as infinitas tonalidades de verde das terras cultivadas entre o sistema de canais holandeses onde brilha o reflexo das árvores na água escura nas redondezas de amsterdão.
faz-nos pensar se não foi mesmo alguém mesmo especial que nos criou isto tudo. humildes.
celestial

para cima… para sentirmos o pulso da vida por dentro… deixando as preocupações por traz…por segundos… abraçamos o céu…
cair e levantar

…do 7º andar, disseste…caíste, mas estás bem?…nem é a primeira vez que alguém cai daí…chamam-na «o 7º céu», podes imaginar porque…é óbvio, já sabias… quem é que não sabe…
…pois, exacto, a poluição da cidade, não é…quem está lá em cima não vê a rua, só vê o céu azul, imenso, perde-se com a beleza…e quem está aqui em baixo, só vê as nuvens, e mais nada…bem, os raios de sol passam de vez em quando…
…caíste da janela?…olha, acontece…este prédio tem tantos anos, e mesmo assim ninguém se propôs instalar um elevador, pois não, que seria uma solução óbvia, e que também evitava muitos problemas…
… é que leva-se tanto tempo para lá chegar…à sério, conheço casos que levaram uma vida…ou já lá foram, subiram ou num instante, ou a muito custo todas as escadas, e quando finalmente lá chegaram ou a porta não abria, ou repensaram o assunto, ou assustaram-se com o que encontraram, ou até ficaram…estes últimos são casos raros…
…pois é…naturalmente que ninguém suporta estar na cave, nem no rés-do-chão, por amor de deus, com esta humidade, com este frio e esta escuridão…não…melhor é subir nesta vida, não concordas…tentar, pelo menos…
…já no 1º encontram-se pessoas muito simpáticas, vizinhos…dão um certo conforto, esquecemos da solidão…uma conversa aqui e acolá…troca de palavras que confortam, mesmo durante um período escasso…
…agora, no 5º vive uma pessoa amiga…sabes, uma daquelas com quem existe aquela confiança que se tem com pouca gente…almoços, jantares, segredos, um abraço quando é preciso, um telefonema na hora certa…uma daquelas pessoas que te aceita como és, sabes, sem grandes dramas…e sem confusões…
…levá-la ao 7º?…parece-me um passo arriscado…temos todos as nossas experiências…já lá estive…a outra pessoa também…ao mesmo tempo?… quer-se tanta emoção…mistérios, curiosidades, brincadeiras…um toque…um olhar…sentir cumplicidade…uma sensação tão forte que dói…aquele desejo de fazer parar o que temos de bom, mas que acaba por se estragar, porque temos medo ou porque tinha de ser…ou por pura incapacidade…ou se calhar porque o amor não existe…nem a amizade…se calhar porque vivemos melhor envolvidos numa ilusão e queremos tanto e acabamos sempre por nos desiludir…
…quem criou aquele andar deve ter sido ilusionista a trabalhar como arquitecto part time….é que não foi bem feito, não pode ter sido um profissional…o espaço desmesuradamente grande …a altura do tecto…o tamanho das janelas…tudo megalómano…sem nexo…sem o real…
…se calhar até devia-se fechar as escadas que lá chegam?…fazer com que as pessoas não subam, fazê-las perceber que é no meio do prédio é que se está bem…evitar que aquele elevador seja instalado…ou pelo menos fechar a saída para o tecto, colocar fechaduras nas janelas…não concordas?
…mesmo assim…já sonhei com a possibilidade…se eu pudesse, só por umas horas lá ir, levando-a comigo… e depois, se for preciso, descermos as escadas de incêndio…juntos…sem ninguém se magoar… ficávamos a ver os raios de sol penetrarem as nuvens…