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french love em faro
cair e levantar

…do 7º andar, disseste…caíste, mas estás bem?…nem é a primeira vez que alguém cai daí…chamam-na «o 7º céu», podes imaginar porque…é óbvio, já sabias… quem é que não sabe…
…pois, exacto, a poluição da cidade, não é…quem está lá em cima não vê a rua, só vê o céu azul, imenso, perde-se com a beleza…e quem está aqui em baixo, só vê as nuvens, e mais nada…bem, os raios de sol passam de vez em quando…
…caíste da janela?…olha, acontece…este prédio tem tantos anos, e mesmo assim ninguém se propôs instalar um elevador, pois não, que seria uma solução óbvia, e que também evitava muitos problemas…
… é que leva-se tanto tempo para lá chegar…à sério, conheço casos que levaram uma vida…ou já lá foram, subiram ou num instante, ou a muito custo todas as escadas, e quando finalmente lá chegaram ou a porta não abria, ou repensaram o assunto, ou assustaram-se com o que encontraram, ou até ficaram…estes últimos são casos raros…
…pois é…naturalmente que ninguém suporta estar na cave, nem no rés-do-chão, por amor de deus, com esta humidade, com este frio e esta escuridão…não…melhor é subir nesta vida, não concordas…tentar, pelo menos…
…já no 1º encontram-se pessoas muito simpáticas, vizinhos…dão um certo conforto, esquecemos da solidão…uma conversa aqui e acolá…troca de palavras que confortam, mesmo durante um período escasso…
…agora, no 5º vive uma pessoa amiga…sabes, uma daquelas com quem existe aquela confiança que se tem com pouca gente…almoços, jantares, segredos, um abraço quando é preciso, um telefonema na hora certa…uma daquelas pessoas que te aceita como és, sabes, sem grandes dramas…e sem confusões…
…levá-la ao 7º?…parece-me um passo arriscado…temos todos as nossas experiências…já lá estive…a outra pessoa também…ao mesmo tempo?… quer-se tanta emoção…mistérios, curiosidades, brincadeiras…um toque…um olhar…sentir cumplicidade…uma sensação tão forte que dói…aquele desejo de fazer parar o que temos de bom, mas que acaba por se estragar, porque temos medo ou porque tinha de ser…ou por pura incapacidade…ou se calhar porque o amor não existe…nem a amizade…se calhar porque vivemos melhor envolvidos numa ilusão e queremos tanto e acabamos sempre por nos desiludir…
…quem criou aquele andar deve ter sido ilusionista a trabalhar como arquitecto part time….é que não foi bem feito, não pode ter sido um profissional…o espaço desmesuradamente grande …a altura do tecto…o tamanho das janelas…tudo megalómano…sem nexo…sem o real…
…se calhar até devia-se fechar as escadas que lá chegam?…fazer com que as pessoas não subam, fazê-las perceber que é no meio do prédio é que se está bem…evitar que aquele elevador seja instalado…ou pelo menos fechar a saída para o tecto, colocar fechaduras nas janelas…não concordas?
…mesmo assim…já sonhei com a possibilidade…se eu pudesse, só por umas horas lá ir, levando-a comigo… e depois, se for preciso, descermos as escadas de incêndio…juntos…sem ninguém se magoar… ficávamos a ver os raios de sol penetrarem as nuvens…
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arrancaram-me o coração…
…início demasiado dramático, perguntou ela a si própria enquanto estava a tentar colocar as suas ideias no papel a preto-e-branco…
…mas era uma simples constatação …foi mesmo esse vazio que a tinha engolido na altura…
…não o tinha conseguido encontrar durante muito tempo…o coração…tinha desaparecido…e sem deixar rasto, ainda lhe doía…
…a procura de uma nova vida tinha sido interrompida…sem aviso…
…e lá se foi a bomba da vida…a razão de ser…a força para continuar…
…ela sabia que não era rosa que se cheire…e que as dúvidas tinham levado tempo a mais…
…a paixão surgiu de forma repentina, as hormonas precisavam de se libertar, e para quem sempre viveu pela razão das suas emoções, não existem limites nem pachorra…
…repitam-se as frases…a musa torna-se chata e é substituída…beijos mil voam para outros lábios…encontram-se outros anjos…é só o amor a mudar de caras…descartáveis…
…qual o espanto, então, perguntou-se…podias ter previsto o cenário, não é…
…pois, disse-te que não era feito de aço…mostrou-se impaciente quando sempre voltaste ao teu porto de abrigo que tantas vezes teimaste a dizer que te atormentava demais…onde já não podias mais, mas onde ficaste na mesma…
…o mais fácil foi culpar a outra…viver a convicção de que realmente foi enganada…do início até ao fim…uma dor a moer no fundo do coração que já não era…
…até um dia…lá estava ele…com marcas cruzadas, encravadas por pneus gastos na estrada, por palavras nunca pronunciadas e por repostas nunca obtidas…queimaduras de baetas apagadas, de saltos em massa, de letras que chegavam para uma geração, de promessas sem fim e de silêncio…
…ela teve de o apanhar no lixo…
…apesar do estado, conseguiu o trazer, inteiro…
…deitou-o na mesa da cozinha…limpou-o de restos que não lhe pertencia…foi buscar uns rolos coloridos comprados no chinês e envolveu-o em fita-cola…material barato, tudo bem, sensível ao calor e com o risco de se degenerar com o tempo, ela já sabia disso…há sempre mais rolos, pensou ela…
…ficou torto…nunca havia de ser igual a ele próprio…mas o passar do tempo é mesmo assim, ela se confortou…digamos que poderão passar por rugas…de sabedoria …
…colocou-o no seu lugar…
