Archive for Abril 2010
time to party

adoramos todos a farra. não há dúvida. sob um calor intenso primaveril arranca a semana académica da universidade do algarve em faro com um programa preenchido com nomes sonantes como (quase) todos os anos. daqui a pouco é altura da queima das fitas de porto e da mítica queima das fitas dos estudantes universitários de coimbra, um ritual por alguns intitulado como “a mais interessante festa estudantil do mundo” e que mobiliza milhares de pessoas dedicadas ao festejo e ás actividades desportivas e culturais e que absorvem meses de trabalho, todos os anos. os suecos não ficam muito para trás. decorre de 21 a 23 de maio a “lundakarnevalen” na cidade universitária de lund (universidade que na nomeação da qs world university ranking 2009 foi classificado no 67º lugar entre mais de 500 universidades), uma festa com largas tradições que datam (de forma mais organizada) dos meados do século 19 e que é festejada desde 1896 todos os quatro anos. apesar do nome, não tem anda a ver com o carnaval nos países latinos, mas com o saudar da primavera que chega em força nos meses de abril-maio e que literalmente transforma a paisagem (e as pessoas) quando o sol começa a nascer mais cedo. música (com um cartaz composto de artistas e concertos), teatro, cinema, jogos, bebidas e comida, misturado com um cortejo com carros alegóricos e um “spex” (revista) que, tradicionalmente, só é composto por homens actores que também fazem os papéis de mulher – afinal tudo que faz valer a vida estudantil e que faz vibrar os estudantes ao longo dos meses preparativos e que atinge o clímax durante os quatro dias de festa. é, sem dúvida, uma festa de não perder.
e se os universitários portugueses também realizassem as suas festas com maior intervalo, será que não se tornavam mais concentrados, mais sábios e mais competitivos no mercado do trabalho?
protestos nas ruas

aproximam-se as eleições britânicas, estando o actual primeiro-ministro, gordon brown (labour), numa luta feroz com os opositores, nick clegg (democratas liberais) e david cameron (partido conservador). quem se opõe ao sistema político actual anda a tentar angariar simpatizantes e acordar o povo através da distribuição de informações com ideias sobre uma sociedade mais justa e de panfletos contra os governantes e contra as políticas de imigração, de finanças públicas, de saúde e de defesa, chamando a atenção pela possibilidade de boicotar as eleições no dia 6 de maio, indo mais longe que os tugas do partido nulø, e simplesmente queimar os boletins de voto. os anarcas do whitechapel dizem: “politicians are nothing more than a collection of professional crooked liars who are finding it increasingly difficult to manage a system creaking its way to self-destruction. from the moment they leave the elite universities, the political and ruling classes are professional politicians with no experience of work or everyday struggle. the system they preside over is run for the benefit of the few (…). the meaningless policies trundled out by the political parties with much ballyhoo and razzmatazz are nothing more than a set of propositions designed to screw us further, to perpetuate a system of exploitation that should have been swept away hundreds of years ago (…).”
quiçá, um daqueles abanões que são essenciais para chocalhar o estabelecimento político?
links para outros grupos da mesma onda na UK.
gosto pela diversidade

o vulcano eyjafjallajökull a cuspir fogo na islândia. viagem realizada. na suburbia com botas calçadas para contrariar as chuvadas britânicas. faz-se uma primavera quente. homens com boquetes de flores no punho. cachimbos de água em cores fluorescentes concorrem com as hairdues dos punks em camden town. o tamisa com maré baixa. um starbucks em cada esquina. alexander mqueen perto da casa de joalharia de beers e pedintes a venderem the big issue para ganhar um tostão na luta para a sobrevivência. cidade organizada. no tube claustrofóbico mesmo fora de horas de ponta. esquilos mansos na kensington garden a comerem da palma da mão do visitante. graffiti. banhos de sol em hyde park. vida nocturna em soho. um cider orgânico fresco num pub situado num beco perto da bbc. um banho refrescante para os pés no monumento comemorativo da lady di. mercado alternativo, comida de todos os cantos do mundo, design e artigos em segunda mão em brick lane. onda anarca. multidões. sensação de pertença. londres. está-se bem.
para onde o caminho nos leva

(david byrne, talking heads 1985)
a alma esférica

“(…) a alma tem forma esférica (se é que tem alguma forma). uma esfera em que uma luz fraca penetra ligeiramente – mas só ligeiramente – sob a superfície matizada, onde sensações e actos de consciência, como bolas de sabão, rodopiam mudando constantemente de cor.
mais abaixo há apenas um leve vestígio de luz, como no fundo do mar, e depois a escuridão. escuridão, escuridão. mas não é uma escuridão ameaçadora. é uma escuridão maternal.”
(lars gustafsson, “a morte de um apicultor”)
(i)keda livre

quem passou no dia 15 de abril no teatro municipal de faro, teve a possibilidade de assistir ao espectáculo “in pieces” da bailarina fumiyo ikeda, que durante muitos anos fez parte da companhia rosas de anne teresa de keersmaeker, numa encenação minimalista do dramaturgo e artista tim etchells. levou o espectador por um universo repleto de memórias fragmentadas e desorganizadas, a roçar a associação livre e o improviso se não fossem as muitíssimas frases traduzidas para português projectadas no palco, num conto dançado e falado sobre os contornos da vida (momentaneamente sem palavras, mas também em inglês e japonês). num patamar onde a insistente tentativa de colocar em ordem as vivências e os pensamentos, de reproduzir e salvaguardar as memórias através da enumeração quase obsessiva das frases, a peça, a saltitar entre registos de emoções com uma precisão rítmica e física impressionante, acabou por deixar imagens dramáticas, burlescas e de profundo caos.